O mundo que queremos construir com IA

Li a coluna do Nizan Guanaes no Valor essa semana e fiquei com ela na cabeça o dia inteiro. Não por uma frase de efeito. Por uma pergunta que ele deixa no ar e que eu venho adiando faz tempo: que tipo de mundo a gente está construindo com a inteligência artificial?

Ele parte de uma imagem que não é dele nem minha. É da nova encíclica do Papa Leão XIV. E serve para qualquer um que esteja colocando IA dentro do próprio trabalho agora: ou a gente levanta mais uma Torre de Babel, ou reconstrói uma Jerusalém. Já explico o que isso quer dizer.

O que eu quero aqui é pensar em voz alta. Concordo com quase tudo que o Nizan escreveu. E quero acrescentar uma coisa que ele não disse com essas palavras, mas que para mim é o centro de tudo: a fundação. Porque a hora de decidir o mundo que queremos viver, e como vamos usar a IA para construí-lo, é agora. Se a base não for firme, a obra desaba. Ou no mínimo entorta feito a torre de Pisa.

O que Nizan Guanaes viu na encíclica de Leão XIV

Primeiro, quem é quem nessa história. Importa, porque cada um entrou com uma parte.

Nizan Guanaes é publicitário. Fundou a DM9 nos anos 90, depois a Africa, montou o Grupo ABC e vendeu para a Omnicom em 2015, no maior negócio da propaganda brasileira. Hoje toca a N.ideias e assina uma coluna no Valor Econômico. Ele faz questão de avisar, logo no começo do texto, que escreveu a coluna junto com a IA. Achei honesto. Combina com o assunto.

A imagem central não é invenção dele. Vem da Magnifica Humanitas, a primeira encíclica do Papa Leão XIV, publicada em maio de 2026 e dedicada uma parte grande para o assunto que vou comentar: proteger a pessoa humana na era da inteligência artificial. O documento foi assinado no aniversário de 135 anos da Rerum Novarum, a encíclica de 1891 que tratou do trabalho na virada industrial. A escolha da data não é à toa. A Igreja está dizendo, sem meio-termo, que a IA é a nova questão social do nosso século.

Leão XIV recorre a duas imagens bíblicas. A Torre de Babel, do Gênesis, a cidade que tenta alcançar o céu pela própria vaidade e termina em confusão. E a reconstrução das muralhas de Jerusalém, do livro de Neemias, uma cidade que volta a ficar de pé pelo trabalho coordenado de muita gente. O Papa usa um verbo que ficou comigo: desarmar a IA. Não recusar. Desarmar. Tirar dela a lógica de dominação e devolver o controle para quem deveria ter.

O que o Nizan fez foi pegar essa imagem e trazer para o nosso terreno. O dos negócios, da comunicação, do trabalho de gente comum. É aí que a conversa sai do púlpito e fica concreta.

Babel é a tecnologia sem fundação

Aqui entra a parte que é minha.

Quando o Nizan e o Papa falam de Babel, falam de técnica sem ética, de potência sem propósito. Concordo. Mas tem um detalhe de obra que ninguém comenta e que eu, vindo de onde venho, não consigo ignorar. Babel não caiu por ser alta demais. Caiu porque ninguém pensou no que vinha embaixo.

Toda construção que dura começa pela fundação. A parte que ninguém vê, que não aparece na foto, que não dá orgulho de mostrar para uma visita. É a etapa mais chata e a mais decisiva. Se a fundação está torta, não importa quão bonito é o prédio em cima. Ele vai entortar junto. A torre de Pisa não é charmosa por opção. É um erro de fundação que virou cartão-postal, e que só não caiu por sorte e por séculos de escoramento.

Com IA é igual. A gente está empolgado com o que aparece na superfície. O texto que sai pronto, a imagem que surge em segundos, a planilha que se preenche sozinha. Essa é a torre. Bonita, rápida, impressionante. Mas a fundação é outra coisa. É qual dado eu estou usando, com que critério, a serviço de quem, e o que eu me recuso a entregar para a máquina decidir.

Eu mesmo já me peguei do lado errado. Coloquei IA para resolver uma tarefa e, no susto da velocidade, terceirizei o julgamento junto. A ferramenta me deu uma resposta boa, redondinha, e eu quase aceitei sem checar. Aquilo me assustou mais do que qualquer manchete sobre robô tomando emprego. Não foi a IA que falhou. Fui eu que parei de prestar atenção. Problema de fundação, não de tecnologia.

A diferença entre Babel e Jerusalém, na prática, mora aí. Não está no quão avançada é a ferramenta. Está em quem mantém a mão no nível, conferindo se a base está no esquadro enquanto a obra sobe.

Nem tudo que escala eleva

Tem uma frase do Nizan que eu achei ótima:

“Nem tudo que escala eleva. Nem tudo que acelera melhora. Nem tudo que é inteligente é sábio.”

Pega só a primeira parte. Escalar virou objetivo em si. Todo mundo quer fazer mais, mais rápido, com menos gente. A IA é a promessa perfeita para isso. Só que escala não é a mesma coisa que valor, e a gente está confundindo os dois com uma facilidade preocupante.

O Nizan dá o exemplo das empresas, e é certeiro. A companhia que usa IA só para cortar custo ganha eficiência no curto prazo e perde uma coisa que levou anos para construir: cultura, confiança, o que ele chama de alma. Já quem usa a tecnologia para ampliar a inteligência das pessoas, para formar gente melhor e entregar serviço melhor, ganha algo que não cabe na planilha. Ganha legitimidade. E essa é a aposta dele que mais vai envelhecer bem: legitimidade vai valer tanto quanto tecnologia.

Penso nisso na minha própria operação o tempo todo. É tentador medir o ganho da IA em horas economizadas, porque é o número fácil de mostrar. Mas o número que importa é outro. O trabalho ficou melhor, ou só ficou mais rápido? Porque rápido e raso a IA entrega de sobra, é o que ela faz de olhos fechados. O difícil continua sendo o de sempre: ter o que dizer, e dizer com verdade. A máquina acelera a entrega. Ela não tem o que dizer no meu lugar.

Quando uso a IA para escrever mais e pensar menos, estou empilhando pedra. Quando uso para pensar melhor e decidir com mais informação, estou assentando tijolo. É o mesmo software nas duas frases. O que muda é o que eu estou construindo com ele.

A pergunta não é o que a IA faz — é quem decide

O ponto mais forte da coluna, para mim, não é sobre tecnologia. É sobre poder.

Nizan diz que a questão já não é se a IA vai mudar o mundo. Isso está decidido, passou da hora de discutir. A questão é quem terá voz na mudança. E aqui ele volta para a imagem da encíclica: Babel é quando poucos decidem o destino de muitos. Jerusalém é quando muita gente participa da reconstrução do que é de todos.

Repara como isso vira a chave. A conversa sobre IA costuma travar entre dois grupos. O pessoal deslumbrado, que acha que toda novidade é progresso automático, e o pessoal apocalíptico, que enxerga ameaça em cada lançamento. Os dois erram pelo mesmo motivo. Tratam a tecnologia como se ela tivesse vontade própria. Não tem. A IA carrega a cara de quem a constrói, a intenção de quem paga por ela, a ética de quem regula e a cultura de quem usa. Isso é do Nizan, e está certíssimo. A ferramenta é neutra até o instante em que alguém a liga com um propósito.

Então a pergunta deixa de ser técnica. Não é o que a IA consegue fazer. É quem está na mesa quando se decide o que ela vai fazer. Se for só big tech, mercado e engenheiro, é Babel pura. Se entrar também professor, médico, advogado, artista, gente que trabalha e gente que vai conviver com o resultado, vira outra coisa. O Papa lista esses ofícios na encíclica de propósito. Ninguém deveria assistir a essa construção sentado na arquibancada.

Vale para o país e vale para a sua mesa de trabalho. Quando você adota uma ferramenta no time sem perguntar o que ela faz com o jeito de trabalhar das pessoas, você também está deixando poucos decidirem pelo resto. Babel começa pequena, num detalhe que ninguém debateu.

O mundo que queremos começa pela fundação

Volto para a pergunta do título, que é a que me move. Que mundo a gente quer construir com isso?

Não é uma pergunta para responder em congresso, com slide bonito. É para responder na segunda de manhã, quando você abre a ferramenta e decide o que vai pedir para ela. Toda vez que você usa IA, coloca um tijolo. Não tem comitê decidindo isso por você. Tem você, repetindo escolhas pequenas todo dia, quase sem perceber que está construindo.

Nizan fecha dizendo que o futuro não será salvo por torres mais altas, e sim por vínculos mais fortes. Assino embaixo. E completo com o que aprendi apanhando: vínculo é fundação. Confiança é fundação. O critério que você não pode abrir mão é a fundação. Velocidade é o andar de cima, e o andar de cima só fica de pé se o que está embaixo aguentar o peso.

A hora de cuidar disso é agora, não depois que o prédio subiu. Mudar fundação com a obra pronta é caro, é demolição, é recomeçar. Agora ainda dá para acertar o esquadro com calma. Daqui a alguns anos, com tudo já construído em cima de uma base torta, a conta chega. E chega como em Pisa: ou você escora para sempre, ou aceita que entortou e segue convivendo com a inclinação.

Eu não tenho a resposta fechada de qual mundo a gente vai erguer com a IA. Ninguém tem. Mas tenho clareza de uma coisa, não quero descobrir isso por acidente, olhando para trás. Quero decidir, enquanto ainda dá. Tijolo por tijolo, com a mão no nível.

Conclusão

A coluna do Nizan me lembrou de uma obviedade que a pressa faz esquecer. A gente não está só adotando uma ferramenta nova. Está decidindo, sem cerimônia de inauguração, que tipo de mundo vai habitar. Leão XIV chama de Babel ou Jerusalém. Eu chamo de uma escolha sobre a fundação. No fim, dá no mesmo.

Essa decisão não dá para terceirizar. Nem para a big tech, nem para o futuro, nem para a própria IA. Ela acontece agora, no detalhe, na forma como cada um de nós usa isso todo santo dia. Eu prefiro construir devagar e firme a construir rápido e torto. Já vi torre bonita demais cair por causa do que ninguém olhou embaixo.

E você, no que tem usado a IA para construir de verdade? Está levantando mais uma torre, ou cuidando da fundação? Me conta aqui embaixo. Quero ler.

Perguntas frequentes

O que é a encíclica Magnifica Humanitas?

É a primeira encíclica do Papa Leão XIV, publicada em maio de 2026 e dedicada à proteção da pessoa humana diante da inteligência artificial. Ela não condena a tecnologia. Pede que a IA seja “desarmada”, ou seja, libertada da lógica de dominação e colocada a serviço das pessoas. Usa duas imagens bíblicas, a Torre de Babel e a reconstrução de Jerusalém, para ilustrar os dois caminhos possíveis.

Quem é Nizan Guanaes?

Publicitário brasileiro, fundador da DM9 e da Africa e criador do Grupo ABC, vendido à Omnicom em 2015. Hoje comanda a N.ideias e é colunista do Valor Econômico. A reflexão deste artigo parte de uma coluna dele que retoma a imagem da encíclica de Leão XIV. A leitura da encíclica é dele; as opiniões que eu acrescento aqui são minhas.

O que significa “desarmar a IA”?

É a expressão do Papa Leão XIV. Desarmar não é rejeitar a tecnologia nem parar de usá-la. É impedir que ela domine as decisões e as pessoas. Usar com prudência, governar o uso, manter o julgamento humano no controle. Na prática, é usar a ferramenta sem terceirizar o critério para ela.

Como aplicar isso no dia a dia de quem trabalha com IA?

Comece pela fundação, não pela velocidade. Antes de medir quanto tempo a IA economizou, pergunte se o trabalho ficou melhor ou só ficou mais rápido. Defina o que você não delega: o julgamento, a checagem do que é verdade, a decisão final. E lembre que cada uso é uma escolha que soma. O resultado de longo prazo é a soma das escolhas pequenas que você repete todo dia.

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